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| The Lovers -René Magritte |
A pauta da
moda nos discursos das ciências humanas é a tentativa de esgotar a análise
sobre as pessoas e suas maneiras de encarar as relações neste nosso momento
contemporâneo. Eu, enquanto peça deste cenário, converso e conheço todo tipo de
gente (adoro fazer isso, melhor laboratório, impossível), tento escutar cada
experiência, anseio, angústia, dúvida, e foi a partir disso que busquei trazer
para discussão as modalidades de relações que estão sendo inauguradas.
Sabemos que a
pós-modernidade possibilita diversas formas de encontro. O momento traz em sua
consigna o prazer intenso e a busca dele, porém de maneira muito volátil. Isso
tudo é um fenômeno, e se é fenômeno, tem que ser compreendido como tal. Pensando
neste sentido, percebo que a maioria das pessoas se relaciona por meio de
encontros casuais, momentos intensos, pouca ou nenhuma cobrança e um
distanciado que parece, inicialmente, eficaz. Acredito que apesar da grande
parcela estabelecer este tipo de encontro emocional-sexual, quase todo mundo
não consegue compreender e aceitar isso. São raras as exceções. A carência
afetiva se instaura na subjetividade, a necessidade de ter mais que sexo e
prazer aparece com uma força que desequilibra a ordem de desejo do humano.
A pós-modernidade
é tentadora, porém cruel com este novíssimo homem. Mostra a possibilidade de não ter o menor
envolvimento, mas existe a cobrança e necessidade interna de ir além. Essa
angústia acaba desencadeando um processo de insatisfação pulsante no homem
líquido, que quer distância e ao mesmo tempo deseja vivenciar algo próximo, que
esteja além do sexo e do prazer. O hedonismo mostra a sua face deliciosa,
possibilidades de experiência sexuais riquíssimas, mas aquele vazio subjetivo
sempre parece ganhar força nos dramas internos. Então surge a pergunta: “o que
eu desejo?”. O homem pós-moderno não entende o que deseja, isso não é palpável
para ele, se tornou muito disperso e difícil de alcançar. Ele se equilibra
entre prazer e necessidade de vínculos estáveis e sintomatiza sua angustia nos
consultórios e demais espaços de escuta e comunicação.
Qual será o
gozo deste homem? As pessoas entram em padrões de fuga e esquiva dos
relacionamentos estáveis, verdadeiros malabarismos da emoção e da proximidade.
A intimidade e individualidade não podem ser atingidas porque este homem tem
necessidade dele mesmo, ele quer prazer em si mesmo e utiliza do corpo do outro
para potencializar o seu gozo (mas que gozo é esse afinal?). O homem sozinho
gosta da sua solidão, mas grita por companhia e sente carência. Então este
homem contemporâneo entra no processo de casualidades, satisfazendo o seu
instinto sexual e gozando fisicamente frente ao vazio. O que chega à minha
escuta é justamente o que já sabemos: a insatisfação inscrita no homem. Nada
completa o espaço vazio subjetivo por mais que exista tanta oferta.
Vamos pensar
sobre o homem contemporâneo tal como ele é e se apresenta, com suas
necessidades e vicissitudes, anseios e vácuos. Aceitemos este homem. Os grandes
sintomas pós-modernos surgem da luta subjetiva da ambivalência. É um momento de
conhecimento sobre essa nova condição humana de se alimentar de vazios. As
anorexias são sintomas de se comer o nada; as redes sociais são sintomas da
necessidade de quantidade e exibição, porém de distanciamento (cada um está no
seu globo individual); os vínculos rápidos e descartáveis são sintomas da
necessidade de preencher para depois esvaziar. O homem está em si mesmo, por si
mesmo. Prazer, gozo, descarga energética e vazio. O momento é o da chegada de
outra tônica relacional decorrente de tudo aquilo que já sabemos:
globalizações, neoliberalismos, grandes guerras, industrializações, dentre
outros aparatos históricos, culturais e sociais, todos muito entrelaçados.
É necessário
um processo de compreensão sobre este fenômeno e de aceitação dessa nova
condição. Toda transição traz angustia e mudança no homem, que é fábrica e
instrumento desse mundo. Quem sabe no processo de aceitação as coisas não se
tornem menos dolorosas e angustiantes? Compreender a inclusão da experiência do
contemporâneo nas subjetividades enquanto constituinte e formadora. É indispensável
parar de estigmatizar este momento. São novos encontros, novas práticas e
experiências inseridos no período pós-moderno. E eu, daqui de fora e de dentro
(como sempre faço), venho me encantando cada vez mais pelo humano e suas
facetas. Por mais que seja criticado em suas modificações, ele nunca se
completa e não vai se encerrar por aqui, e é aí que está toda a sua sedução e
beleza.

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